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segunda-feira, 16 de setembro de 2019

A capela dos ex-votos

Para a HQ, fotografei a igreja de vários ângulos, pois precisaria reproduzir cada detalhe do prédio e considerar o desenho da decoração sacra do interior. A partir destas imagens, desenhei os cenários da história, que acontece em sua maior parte, dentro da igreja, no processo de exorcismo.

A capela foi inaugurada em 1895. 



Antes da reforma, estas paredes estavam repletas de imagens de fiéis que agradeciam à Nsa. Sra. de Caravaggio por graças alcançadas.

Campanário

Existe ainda a história do relógio que foi construído a mão por um morador local em 1900 (ou 1932 conforme inscrito no relógio). Esta história pode render uma outra HQ.

Esta seria a suposta janela por onde o diabo escapou. Foi reformada, não é mais a original.


































Minha versão da igreja










quinta-feira, 5 de setembro de 2019

A LENDA DO EXORCISMO EM CARAVAGGIO

Meu primeiro contato com a história do exorcismo ocorreu em uma visita da escola ao santuário. Naquela manhã, todo o colégio caminhou do centro da cidade até Caravaggio. Devia ser 1986, não tenho certeza. Lembro da sacolinha térmica pendurada no ombro onde levei uma ou duas latas de refrigerante, cuja expectativa em desfrutá-las me acompanhou em todo o trajeto, além de um saco de salgadinho. Dentro da capela, fiquei impressionado e meio chocado com a quantidade de retratos pendurados nas paredes, com as muletas e próteses acumuladas pelos cantos. Era assustador observar os personagens das fotos e os relatos escritos.

Interior da capela ex-votos antes da reforma. Créditos: Porthus Junior
Nisso, uma professora ou integrante do santuário, não lembro, contou a história do exorcismo para o grupo de estudantes presentes. Se eu já estava impressionado com o que vira, fiquei gelado com o que ouvira. O relato era tão fiel que não podia ser mentira. Além do mais, havia prova física da presença do diabo: as grades retorcidas da janela!

Relatos de exorcismo geralmente são seguidos de provas imprecisas. Assim como os  avistamentos de seres extraterrestres, os relatos trazem uma atmosfera, sinais, possibilidades. Nunca provas reais. No máximo, um borrão. E é assim que se constroem mitos: não revelando as verdades. Melhor, contado uma história verossímil, ou seja, que tem todas as características de verdade, mas que não é verdade; parece, apenas. A ficção está repleta de exemplos de peças que levam os incautos a defenderem seus argumentos. Citemos o caso do livro “O Código Da Vinci” de Dan Brown, onde os leitores invadiam as capelas citadas na obra à procura de pistas descritas nos livros. Ou sabemos de fiéis expectadores noveleiros que agridem o ator que interpreta o vilão da novela no supermercado. Realidade e ficção, e a falta da abstração.

Matéria do Jornal Textando

Trecho do livro "Por uma graça alcançada" de Vitor Tonollier
Trecho do livro "Caravaggio: cinquenta anos de trabalho e fé!" de Ivone Foletto Vendrúsculo

A lenda do exorcismo


Possuída por um diabo, uma mulher é levada para a capela (a original, não a atual) em Caravaggio para a seção de exorcismo conduzida pelo padre local. Em alguns dias, o diabo é expulso do corpo e foge pela janela de trás da capela, entortando as grades na fuga.

A reconstrução dessa história deriva de depoimentos dos moradores da localidade, conhecida como Cruzeiro, e de participantes do exorcismo, como o Padre Teodoro Portolan e freiras auxiliares no processo. A lenda ainda traz um motivo para que a possessão do demônio seja justificada: o noivo abandonado havia rogado uma praga para o dia do casamento da moça.

O caso aconteceu em 1947. Não havia, naquela época, profissionais gabaritados para uma avaliação psicológica ou conhecimento suficiente que detectasse algum tipo de doença mental. Os relatos citam que a possuída, que teve que ser conduzida por 5 ou 6 homens devido à força sobrenatural da possessão, passou dias dentro da capela, sem dormir ou se alimentar direito, acompanhada pelo padre, auxiliares e suas rezas.

A adaptação para os quadrinhos


Esta lenda foi transposta para os quadrinhos em função de sua incrível verossimilhança. Ela traz motivos e provas para quase tudo e isso a torna atraente. Além disso, transformei o fato de ter ficado assustado com a história quando criança em motivo para comédia.

Particularmente, acho que o ser humano é suficiente mau para assumir o papel do diabo. Basta abrir um jornal ou acessar conteúdo de sites jornalísticos para constatar as atrocidades que certas pessoas cometem. Mesmo assim, deixei uma ponta aberta na história para que o diabo possa participar, nem que seja como um personagem na cabeça de quem quer acreditar nele. Coloquei uma pista (easter egg) bem discreta sobre o papel do diabo na HQ. Espero que o leitor a encontre. De qualquer forma, na HQ, ele tem um papel importante: abrir e fechar a história.

O fato de ter havido um exorcismo aqui na cidade não poderia passar despercebido. Todo caso de exorcismo traz consigo uma série de elementos emocionais e chocantes que colocam nossa fé à prova. Além disso, o caso é único nesta região. E, claro, oferece a possibilidade de várias interpretações sobre o que realmente aconteceu. Para isso, mantive os elementos centrais da lenda: o motivo, a moça possuída, o padre exorcista, a capela onde ocorre o exorcismo, o processo do exorcismo, as freiras auxiliares, o diabo e a prova da fuga. E acrescentei outros elementos para tornar o enredo mais dinâmico: o desavisado, o coroinha, os colonos. Eles atuam como personagens de apoio para que o enredo se sustente e os diálogos ajudem o leitor a compreender o que cada um dos personagens principais pensa a respeito do acontecimento.

Mas há um ponto de vista interessante: apenas o leitor sabe o que realmente está acontecendo. Ele assiste de camarote o desenrolar dos fatos e, com isso, tento tornar esta “comédia dos erros” mais engraçada.

O fato de que nenhum personagem percebe o que realmente ocorre é a minha crítica.  Defendo que ninguém consegue compreender tudo o que está acontecendo, cada um tem a sua visão do que acontece ao seu redor, levando a pensar e a agir de acordo com a própria percepção parcial. E afirmo ainda que as pessoas, de maneira geral, não querem ou não estão dispostas a buscar a compreensão dos acontecimentos. Se o ser humano é limitado em sua percepção, e percebe esta limitação, não seria seu dever, por instinto humano, buscar a compreensão?

Não se pode acreditar na certeza. É preciso duvidar sempre e pesquisar por conta própria para encontrar a verdade. Ou mais dúvidas. Ou outras possibilidades de compreensão.

O leitor vai confiar nos fatos ou na fé? É preciso acreditar nessa história de exorcismo? A fé em Deus ignora ou inclui a crença no diabo? São histórias que envolvem mistério e fé, não é mesmo? Esta é a essência da HQ.

A adaptação da história leva em conta cada elemento da trama e acrescenta outros objetivando a comédia. Além disso, tratei a trama como uma maneira de rir daquilo que me assustou quando garoto. Ou seja, assim como a lenda é repleta de imprecisões, na minha história, nenhum personagem age corretamente, todos se equivocam. Um personagem compreende errado, o outro pega o livro errado, outro lê errado, outro observa errado, outro está no lugar errado na hora errada.

As referências cinematográficas sobre exorcismo também foram utilizadas no intuito de encontrar correspondência no imaginário do leitor. Detalhe: o exorcismo aconteceu em Caravaggio no ano de 1947, mas as referências foram baseadas no filme “O Exorcista” que seria lançado apenas em 1973.

Cartaz do filme "O Exorcista"
Cena do filme: Personagem escada (à direita) assume o ponto de vista do expectador.

Apenas um personagem age de acordo com o seu papel: o diabo! A única coisa que é incerta da lenda é a certeza desta história. O diabo volta ao final para dar sequência ao seu plano maldito. O mal nunca termina, ele apenas segue o seu curso. 



segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Visita à escola Antônio Avelino Boff, em Fazenda Souza, Caxias do Sul

No dia 22 de agosto, visitei a escola estadual de ensino médio Antônio Avelino Boff a convite da diretora e demais professores para conversar com os alunos sobre histórias em quadrinhos.

Mural de recepção com caricatura, livro e a foto do fundador da escola acima: perfeito!
Um dia é da caça...

Comitiva da escola para a recepção e representantes das etnias alemã, italiana e africana. 
A recepção foi coisa de outro mundo. O pessoal me recebeu com música e me deixou encabulado, pois não é do meu feitio ser holofote. Mas fiquei muito feliz e dificilmente me esquecerei desta recepção. Era um dia frio, até usava touca, e o pessoal tava de vestidinho, roupas leves... espero que não tenham se gripado. Com as roupas deles, naquele dia, eu teria uma pneumonia. O mural teve até caricatura. De qualquer forma, esta recepção me pegou de surpresa. Não esperava ter minha presença tão valorizada. E cada vez mais confirma a percepção e o sentimento bom que tenho todas as vezes que visito uma escola como convidado: é sempre um ambiente alegre, pra cima, pessoas felizes e abertas a ouvirem. Adoro visitar as escolas e sempre saio delas mais alegre do que entrei.





Painel com expressões típicas italianas e retratos desenhados pelos alunos. 
Painel com expressões típicas italianas e mais retratos.

Mural com a produção de quadrinhos.

Imagino que pelo contato mais frequente desta geração com imagens, a produção criativa de peças gráficas tem ficado mais significativa e de maior conteúdo humorístico. As histórias em quadrinhos que os alunos produziram apresentam elementos da linguagem dos quadrinhos muito bem trabalhados e aplicados com qualidade.

Aulas de desenho com elementos típicos dos imigrantes.
Frutos da imigração: produtos plantados pelas famílias dos alunos.
Conversei com uns 100 alunos entre as duas palestras da manhã e tarde, expliquei o processo de criação de uma história em quadrinhos, mostrei meu portfólio e deixei algumas mensagens para aprimorar o talento dos alunos que foi exposto nas paredes, principalmente sobre a criatividade.

Palestra para a turma da manhã. 
Palestra para a turma da tarde. 
Recebi um mimo da italianinha. 

Caloroso acolhimento e aquele "bem" estrategicamente posicionado acima do meu ombro direito.


segunda-feira, 5 de agosto de 2019

A origem das igrejas

O enredo que envolve a origem destas duas igrejas na cidade de Farroupilha é digno de um filme, de um livro ou mesmo de uma história em quadrinhos que trate de mistério e fé! Sem dúvida, é a MAIOR TRETA da história de Farroupilha!


O ano era 2008 (acho) e eu fui dormir na casa dos meus pais, que haviam ido à praia. Meus avós, que moravam a uns 20 metros da casa, me convidaram para jantar na casa deles. Na primeira noite, após o jantar, meu avô inventou de contar suas histórias de infância e sobre sua vida em Farroupilha. Na segunda noite, levei um gravador para o jantar. Até hoje tenho gravadas 2 fitas K7 com os contos e piadas na voz dele, com as palavras dele.

O vô e eu

Uma destas histórias tratava do imbróglio entre a origem da igreja Matriz e da igreja do bairro Santa Rita. Na época, eu era um ignorante absoluto sobre a história da cidade, e achei que era lorota do vô pra cima de mim. Não podia ser verdade. Uma história cheia de revezes, de jogos, de brigas e de mistério, tão interessante, não poderia ter acontecido a metros de onde estávamos. Mas o que ele contou não apenas era verdade e, ao pesquisar, descobri que os detalhes da história batiam perfeitamente.

Esta história também foi relatada pela Alice Gasperin, no livro Farroupilha: ex-colônia particular Sertorina (1989), nas páginas 155 a 160. 






sábado, 3 de agosto de 2019

Qual é a boneca mais assustadora?

À esquerda você vê a boneca Annabelle original e, à direita, a boneca LENCI, do Museu Municipal de Farroupilha. A lenda da nossa boneca é mais antiga, mais interessante (eu acho!), e mais acolhedora. A Lenci tá ali no museu esperando uma visita sua. Vá conhecê-la!


sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Lydia Moschetti: a dona da boneca

Lydia é uma das figuras mais espetaculares que Farroupilha já conheceu. Não apenas pela doação do acervo e do imóvel ao município, mas pela trajetória de talento, benemerência e doação que esta mulher fez não apenas nesta cidade, mas em todos os lugares por onde passou.


Nasceu em Fucecchio, na Toscana, em 14 de setembro de 1896. Teve nove irmãos e uma infância cheia de privações materiais e afetivas. Estudou em um internato de freiras. Imigrou para o Brasil, em São Paulo, com 17 anos. Atuou como soprano em uma companhia de teatro.

Palavras de Hilda Agnes Hübner Flores, vice-presidente da Academia Literária Feminina do RS, em prefácio no livro da Lydia:

“De tudo, concluo que Lydia teve uma jornada de vida diferenciada. Dinâmica, destemida e agressiva, transformou asperezas da vida em manancial de ajuda, assumindo uma grande sequência de realizações beneméritas como forma de manter-se permanentemente ocupada para acalmar seu temperamento indócil e revoltado ante a miséria alheia e a que ela mesma sofreu.”

Segue uma lista das obras que Lydia fundou:

1938: Grupo de Escoteiros
1939: Casa do Pequeno Jornaleiro
1940: Sopa Escolar em dois grupos escolares
1941: Instituto Santa Luzia, escola profissional para cegos
1941: Grupo de Escoteiros e Bandeirantes em Santos
1943: Fundou a Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul
1947: Educandário Dom Luiz Guanella
1955: Fundação pela Mãe e pela Criança
1956: Banco de Olhos, pioneiro no Brasil
1963: Lar do Bebê e Pupileira (para filhos de mães solteiras)
1970: Artesanato Feminino na Vila Ipiranga

Como co-fundadora em múltiplas iniciativas:

Pequena cruzada (1935)
Creche Navegantes do Círculo Operário (1935)
Natal do Guarda de Trânsito (1935)
Natal da Criança Pobre
Sopa para tuberculosos da Santa Casa de Misericórdia (Poa)
Enxoval para bebês na Santa Casa de Misericórdia (Poa)
Casa Nossa Senhora Medianeira (1940)
Almoço para mendigos Asilo Padre Cacique
Almoço para 200 crianças Mato Sampaio (bairro pobre de Poa)
Amparo Santa Cruz
Leprosário Itapoã
Sanatório Belém
Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano (Poa)
Liga da Defesa Nacional (1940)

Livros publicados: 

1940: A sobrinha do cardeal (romance)
1941: A vida é um ponto de “?” (romance)
1944: Um baile e uma vida (romance)
1946: No altar da caridade (romance)
1946: Uma lágrima (poesia)
1948: A morte das ilusões (romance)
1960: O problema do delinquente infantil e sua recuperação
1969: Poesias esparsas (poesia)
1970: Pensamentos soltos (poesia)
1970: Autobiografia (biografia)
1971: A história de minhas fundações
1971: Podes dormir tranquila (poesia)
1971: Trincheiras humanas (poesia)

Capa do livro autobiográfico
Esta lista que escrevi enumera a maioria dos seus feitos. Em sua autobiografia, pode-se encontrar várias outras obras e participações desta magnífica mulher. 

Abaixo, Lydia descreve o momento em que ela ganha a boneca no concurso. 

Trecho extraído de sua Autobiografia, páginas 242 e 243.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Museu Municipal Casal Moschetti

Fachada do Museu Municipal Casal Moschetti

O Museu Municipal Casal Moschetti é um acervo do casal que usava a casa (que hoje é o museu) para veraneio na Serra e que foi doado ao município. No interior, há muitos objetos pessoais e móveis da época deixados pelo casal. A casa nunca foi a moradia do casal, que vivia em Porto Alegre. Era a hospedagem para visita à cidade durante o veraneio.

Minha versão do museu. Espere para ver o que acontece lá dentro...

Mais informações no link da Prefeitura:
http://farroupilha.rs.gov.br/prefeitura/turismo-e-cultura/museus/