Menu

Mostrando postagens com marcador Farroupilha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Farroupilha. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 16 de julho de 2019

O uso de referências nos quadrinhos

A nona arte apresenta uma linguagem dinâmica que permite ao artista aproveitar-se de vários recursos objetivando a construção do significado e, em segundo plano, aplicar referências de autores maiores. As referências engrandecem o trabalho e conversam com o público que possui uma bagagem cultural mais elaborada. Além disso, a referência pode expandir o significado da obra, uma vez que os conceitos que circundam a obra original podem ser reaplicados ou readaptados pelo autor na sua versão, possibilitando uma análise mais profunda. Ainda assim, nem todos os leitores detectam as referências de forma fácil, o que pode ser um problema.

Em "Assim na Serra Como no Céu: a chegada dos imigrantes" usei deste recurso para retratar uma visão panorâmica de Porto Alegre. Como os imigrantes aportaram na capital em 1875, eu precisava mostrar a cidade de alguma forma. Não há muitas fotos deste período e o que pode se fazer é desenhar baseado em outras cidades daquela mesma época. No entanto, descobri um pintor que estava de passagem pela cidade e que elaborou algumas pinturas da cidade e do seu povo.

Pesquisando, descobri o pintor Herrmann Wendroth. Segue apresentação da Wikipedia:

Herrmann Rudolf Wendroth foi um mercenário e artista plástico alemão que veio para o Brasil em 1851, contratado para lutar na Guerra contra Rosas. Integrou a Legião Alemã que serviu no sul, cujos integrantes eram conhecidos pela alcunha de brummers, os "resmungadores".

Chegou ao Rio Grande do Sul por mar, parando primeiro em Rio Grande, e logo seguindo para Pelotas, onde passou preso alguns dias por arruaças. Depois esteve em Porto Alegre, Rio Pardo e Lavras do Sul, onde demorou-se mais explorando ouro nas minas da região.

Dali seguiu em viagem por diversas partes do interior do estado, fixando em aquarelas e desenhos os tipos humanos locais e a paisagem urbana e natural, num documento visual precioso daquela época, executado com grande sensibilidade estética e por vezes mostrando uma veia satírica. Faleceu em torno de 1860.





Esta última pintura eu adaptei para a HQ. Apesar da pintura ser de 1852, acredito que a cidade não tenha mudado a paisagem de forma radical em 20 anos. De qualquer forma, substitui o barco pelo modelo que os imigrantes navegavam.


Este recurso de uso de referências na elaboração de quadrinhos não é novo. Seguem alguns exemplos:

A balsa da Medusa (Géricault, 1819)

Asterix, o Legionário (1967). Por Goscinny e Uderzo. 

Lição de anatomia do Dr. Tulp (1632) de Rembrandt. 

Asterix e o Adivinho (1975). Por Goscinny e Uderzo




sexta-feira, 11 de maio de 2018

Oficina de Tirinhas na Biblioteca


A oficina aconteceu nas amplas dependências da biblioteca pública












No dia 18 de abril, estive na Biblioteca Pública Olavo Bilac em Farroupilha para mais uma oficina de quadrinhos. A biblioteca promoveu atividades em comemoração ao Mês do Livro e tive o prazer de ser convidado para uma delas. Na ocasião, trabalhei com 28 alunos da Escola Municipal José Chesini em uma oficina de tirinhas. Os alunos e eu construímos juntos uma tirinha do cãozinho “Spike”. Na verdade, foram eles que desenvolveram a atividade: criaram o personagem, deram um nome e construíram o humor. Eu apenas orientei os trabalhos. 

Processo coletivo de construção da tirinha - são os alunos que sugerem personagem e trama




Depois da atividade coletiva, cada um deles criou a sua própria tirinha de acordo com as etapas de construção da história em quadrinhos que havíamos conversado mais cedo. Ficou fácil de perceber que o pessoal têm ideias muito interessantes e criativas sobre como resolver um problema desenvolvendo situações variadas e usando o humor.

Em um segundo momento, os alunos desenvolvem suas próprias histórias
As atividades do Mês do Livro da biblioteca foram divulgadas pelo Jornal Informante do dia 20 de abril. 



sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Oficinas de Quadrinhos no Colégio Nossa Senhora de Lourdes


No início de maio, ministrei duas Oficinas de Quadrinhos no colégio Nossa Senhora de Lourdes em Farroupilha. Na ocasião, aproveitei para rever o colégio onde estudei por 9 anos – do pré até a oitava série. Como dá pra ver nas fotos, as oficinas receberam uma enorme quantidade de alunos para desenhar HQs. Juntos, os alunos e eu, construímos um personagem (um unicórnio que foi escolhido pela maioria dos gritos) e criamos uma tirinha tratando do tema do bullying.



O método utilizado nas oficinas é deixar as crianças decidirem os personagens e o rumo da história. Tudo isso é negociado coletivamente. Às vezes funciona, outras vezes não. O processo de ensino-aprendizagem é uma estrada pedregosa. 



O meu papel ali no meio é conduzir a história, questionar as ideias dos alunos no intuito de fazê-los refletir sobre o que foi dito, solicitar votação quando for preciso decidir por uma boa ideia entre várias e, no meio de tudo isso, vou ensinando as diferenças entre os balões, os espaços preenchidos e sua relação com o tempo da história, as expressões do rosto dos personagens, enfim, a linguagem dos quadrinhos.



Cada aluno desenvolveu individualmente a sua tirinha a partir da construção conjunta e deu continuidade em um segundo momento na sala de aula com as professoras. Afinal, toda construção de histórias em quadrinhos leva tempo pra ser produzida.



Traduzindo em números: 151 alunos e 8 professores participaram das duas oficinas. Para mim, é uma imensa satisfação poder participar da vida do colégio no ano em que completa seus 100 anos. Agradecimento especial à bibliotecária Hellen Ferreira pela organização e recepção das oficinas.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Dia do quadrinho nacional

Dia 30 de janeiro é o dia do quadrinho nacional. Para comemorar, publiquei nas redes sociais um teaser para anunciar de forma discreta que novidades irão surgir neste ano.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Assim na Serra... nas escolas

O pessoal da Escola Municipal de Ensino Fundamental Nossa Senhora de Caravaggio me recebeu para uma oficina com este painel maravilhoso.


Voltei no segundo semestre de 2016 para outra oficina durante a Feira do Livro da escola e criamos, os alunos e eu, o painel abaixo. Todo mundo assinou o painel.


O pessoal da APAE também produziu painéis com a temática da obra.


A produção de quadrinhos nas escolas

A Escola Municipal de Ensino Fundamental Angelo Chiele, de Farroupilha, convidou-me, meses atrás, para uma oficina de tiras onde criaríamos personagens para um evento da escola focado na ecologia e sustentabilidade. Através dos desenhos dos alunos, construímos um grupo de personagens e desenvolvemos uma tira de forma coletiva. 

Tira criada coletivamente na oficina de quadrinhos

Mais tarde, retornei à escola para ver a produção dos alunos. Separei algumas tiras que achei geniais. Confira abaixo.

Painel na entrada da escola com a produção dos alunos
Gangue do Lixo - personagens criados de forma coletiva


segunda-feira, 11 de abril de 2016

A Comédia de Dante Alighieri e o discurso interliterário

Virgílio e Dante no Inferno - Ilustração de Gustave Doré

Um recurso que utilizei na produção do roteiro de “Assim na Serra como no Céu: a chegada dos imigrantes” e na concepção geral da obra é o uso discreto de referências de uma grande obra da literatura com o objetivo de ampliar o significado e qualificar a leitura. Evidentemente, pego carona no poema épico “A Comédia” de Dante Alighieri pela semelhança discreta do meu enredo com o maior clássico da literatura italiana. Este recurso, que não deve ser reduzido ao conceito de easter eggs, potencializa simbolicamente a leitura dos quadrinhos. 

Para ampliar o entendimento deste “discurso interliterário”, apresento algumas características de sua aplicação:

Sutileza: para que o recurso funcione, ele precisa ser discreto e trabalhado de maneira bastante sutil para que não se torne uma cópia barata de uma obra maior. Muitos filmes de comédia pastelão roliudiana usam este recurso de forma exagerada e condicionando a compreensão da piada ao prévio conhecimento dos filmes originais (geralmente blockbusters). Na HQ, fiz questão de adaptar o último verso do poema da Comédia de Dante à fala do personagem principal no último quadrinho da história.

Último quadrinho da história remete ao último verso de Dante

Pistas: durante a obra, seja no roteiro ou nas ilustrações, pequenas pistas são adicionadas para que a ligação torne-se evidente. É preciso saber dosar a quantidade de pistas para que apenas o leitor mais qualificado perceba. Em alguns momentos, se coloca a pista lá, de forma clara, como se o livro dissesse: “este é o ponto de partida da ligação, mantenha esta obra em mente e você encontrará mais relações”. É o conhecimento do leitor em relação à obra maior que o conduzirá para as demais pistas e as várias relações entre as leituras. 

No exemplo abaixo, a citação do personagem refere-se ao texto escrito acima dos portões do inferno na obra de Dante.

Marinheiro recebe os imigrantes para a viagem até o Brasil

Relação: pressupõe que a obra criada possua algo substancial em relação à obra maior. Adicionar uma única pista de uma determinada obra por simples ocasião ou porque acrescentaria comédia (ou drama...) ao roteiro, muitas vezes reduz a obra criada e o propósito do uso da relação. Esta relação interliterária deve ser mais profunda, devendo levar em consideração o conceito da obra original e suas particularidades. 

Vamos às relações principais:
Relação (ponte)
A Comédia
Dante Alighieri
Assim na Serra como no Céu:
A chegada dos imigrantes
“Comédia”
Na época em que Dante escreveu o poema, os textos eram separados em Comédias (histórias com finais felizes) e Tragédias.
A história termina com final feliz para o principal casal de imigrantes da trama.
Itália
Considerado o maior clássico da literatura italiana.
A jornada dos imigrantes é contada em prosa e verso na Serra Gaúcha.
Número 3
O poema é dividido em 3 partes: Inferno, Purgatório e Paraíso.

Poemas em terceto, que remete à Santíssima trindade (Pai, Filho e Espírito Santo).

Apresenta 3 personagens principais: Dante Alighieri, o poeta Virgílio e Beatriz, musa de Dante.
A analogia é feita com as três partes da jornada: Itália, viagem e Serra Gaúcha.





Apresenta 3 famílias de imigrantes principais: Sperafico, Radaelli e Crippa.
Enredo
Uma história de amor: Dante enfrenta uma grande jornada por causa de Beatriz.
Uma história de amor: um imigrante italiano enfrenta uma grande jornada por causa de sua mulher.  

Além disso, há inúmeras outras coincidências entre os problemas enfrentados pelos imigrantes que são os mesmos que Dante e Virgílio encontram nesta jornada. Um exemplo é a conclusão de que o caminho para o Paraíso é apontado por quatro estrelas (Cruzeiro do Sul) dando a entender que sua localização fica ao sul da Linha do Equador. Para os imigrantes italianos, uma nova vida também se localizava ao sul do Equador. Ofereço ao leitor curioso a oportunidade de encontrar as outras pequenas coincidências. Esta tarefa remete ao próximo item do processo de construção. 

Pista direta

Busca: na medida em que o leitor mais qualificado percebe que as ligações estão se tornando frequentes, convém que ele busque rever a obra maior para estabelecer as relações mais especificas. Esta busca leva à relação, e da relação se chega à reflexão. Ao chegar neste ponto, o leitor atingiu um nível de interpretação e aproveitamento da leitura que considero ótimo. 

Quadrinhos e o incentivo à leitura



Foi com grande surpresa que recebi o convite para ser o Patrono da 30ª Feira do Livro (edição 2015) de minha cidade. Jamais imaginei que algum artista de quadrinhos fosse convidado para tal posto. Jamais imaginei que eu seria convidado. Enfim, sejam quadrinhos ou literatura, o que importa são os esforços direcionados ao incentivo à leitura. Convite aceito, com enorme prazer!

sábado, 9 de abril de 2016

Almanaque do Paesinho

Semanas antes de ministrar a Oficina de Quadrinhos para a EMEF Carlos Paese, um incêndio destruiu a biblioteca e o laboratório de informática da escola. Depois de ver o tamanho do estrago causado, achei que poderia contribuir com a escola criando uma HQ cuja venda arrecadasse fundos.

Incêndio na EMEF Carlos Paese em setembro de 2015

Propus à diretora da escola a ideia de uma HQ com personagem que desenvolvi no dia anterior à visita. O personagem era um menino na idade dos alunos da escola que deveria inspirar as crianças a fazer alguma coisa pra ajudar na reconstrução. A ideia era utilizar a criatividade das crianças para que eles percebessem que podem mudar o meio em que vivem. Com criatividade, claro. E a HQ foi a oportunidade.
 
Rafe de uma tirinha do personagem 

Mas o menino tinha um problema: havia fogo no lugar do cabelo. E esse probleminha trazia para o menino uma série de dificuldades no cotidiano. Esse era o mote do personagem. O princípio da construção deste personagem é de apresentar um exemplo de criança que possui problemas como todos têm e que precisa aprender a resolvê-los. Para a história da escola, desenvolvi a ideia de que o menino, por um descuido, havia causado o incêndio. E deveria propor algo para consertar. Nomeei provisoriamente o personagem de “Chaminha” já sabendo que os alunos é que deveriam escolher um nome com seus próprios critérios.

Esboço do personagem

Assim que a diretora aceitou a proposta, criei um documento-guia para os professores entenderem o processo de produção da revista, pois a criação das histórias deveria acontecer em sala de aula. E o professor era a peça-chave na construção dos trabalhos dos alunos. 

Documento-guia com instruções do processo de produção da HQ

Considerando que nem todo aluno saberia desenhar, acrescentei uma seção para recortar e montar com diversas partes do corpo do personagem. Isso incluiria todos os alunos que não se sentissem bem desenhando. Para os que gostariam de desenhar, não haveria problema.


Model-kit do personagem para os alunos que não sabem ou não querem desenhar

Depois de prontos os trabalhos, eu recolhi as histórias, escanerizei todas elas e montei uma revista em quadrinhos. O pessoal da Secretaria da Educação estava encarregado de imprimir as revistas para que a escola as vendesse. Aliás, o pessoal da Secretaria da Educação esteve sempre à disposição deste projeto e contribuiu muito para que ele acontecesse. 

Assim, desenvolvi a primeira história da revistinha para introduzir o conceito das historinhas criadas pelos alunos e criei a ilustração da capa. Os alunos batizaram o personagem de Paesinho, em homenagem à escola. Só que o plano ganhou proporções bem maiores que o planejado.

Almanaque do Paesinho - Nº 1
Almanaque do Paesinho - Nº 2

Em primeiro lugar, os professores desenvolveram muitas histórias e muitos alunos participaram. Ao todo, 111 alunos construíram histórias e 7 professores orientaram os trabalhos. Com 54 histórias, não foi possível criar apenas uma revista, pois ela ficaria muito cara para imprimir. A solução foi criar duas revistas que foram separadas pela idade dos alunos. Com uma quantidade menor de páginas, o custo de impressão ficava menor e proporcionaria uma margem melhor para arrecadação na venda.




Em segundo lugar, o pessoal da Secretaria da Educação conseguiu, através de contato do prefeito, que as revistas fossem impressas gratuitamente pela gráfica do Estado do RS, a CORAG. Sem custo de impressão, a revista poderia arrecadar uma verba maior.


Eu e as meninas da Secretaria da Educação: Silvia (E) e Angela (D)

Secretária da Educação, Elaine Giuliatto, no lançamento do Almanaque 

Prefeito Claiton Gonçalves no lançamento do Almanaque do Paesinho

Resumindo: um projeto simples que eu elaborei num intervalo do trabalho, contou com o apoio da Secretaria da Educação, foi aprovado pela diretora da escola, os profes compraram a ideia, os alunos se divertiram criando historinhas e aprendendo, chegou até o prefeito que conseguiu a impressão gratuita na gráfica do estado e culminou no lançamento na 30ª Feira do Livro de Farroupilha.

Eu e os pequenos autores no lançamento do Almanaque do Paesinho